Para Nutanix, soberania de dados é o maior mercado ainda inexplorado no Brasil

Em coletiva de imprensa no .NEXT 2026, diretor da empresa para a América Latina diz que País tem perfil mais próximo da Europa do que dos EUA.

Leandro Lopes, diretor sênior de engenharia de sistemas da Nutanix para a América Latina, não hesita ao comparar o Brasil à Europa quando o assunto é soberania de dados. Para ele, a combinação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) com exigências regulatórias setoriais coloca o País em uma posição singular: há muito dado interno represado e, por isso, muito a ganhar com infraestrutura de inteligência artificial que não dependa de provedores estrangeiros.

“A base da IA hoje é dado. O cliente tem esse dado, mas por regulamentação não pode fazer com que ele saia da sua casa”, disse Lopes durante coletiva de imprensa realizada no evento .NEXT 2026, realizado pela Nutanix em Chicago, nos Estados Unidos. Ele citou o exemplo de instituições financeiras que acumulam milhões de transações de cartão e boleto, mas não conseguem explorar esse ativo com modelos de inteligência artificial por restrições de contratos interbancários e normas como PCI.

O executivo avalia que o mercado brasileiro se divide em três estágios de maturidade. Os grandes provedores de nuvem globais estão tecnologicamente preparados, mas têm o “calcanhar de Aquiles” na soberania. Os provedores de serviços locais têm apelo de governança, mas precisam avançar em tecnologia e portfólio. E o próprio cliente corporativo, que roda inteligência artificial dentro de casa, é onde Lopes enxerga a maior oportunidade para a Nutanix.

O problema do vizinho barulhento

Um dos desafios mais concretos da era dos agentes de inteligência artificial (IA), segundo Lopes, é a disputa desigual por recursos computacionais. Em ambientes com dezenas ou centenas de agentes rodando simultaneamente, um único processo mal configurado pode consumir toda a capacidade disponível e deixar os demais ociosos. “Você pode ter um agente consumindo tudo e os outros 99 parados, porque a aplicação foi mal desenhada”, disse.

Segundo ele, é para resolver esse problema que a Nutanix apresentou o Service Provider Central, portal de gerenciamento multilocatário lançado no .NEXT 2026. Lopes usou uma analogia para explicar o conceito: imagine um prédio com vários apartamentos, cada um alugado para um inquilino diferente, mas com uma única estrutura de base. A solução permite dividir a infraestrutura de forma que cada cliente ou área de negócio opere em seu próprio espaço isolado, com garantias de segurança, conformidade e uso justo de recursos, incluindo unidades de processamento gráfico.

A proposta é relevante tanto para provedores de serviços com múltiplos clientes quanto para empresas que precisam separar internamente os ambientes de finanças, compras e recursos humanos, todos rodando sobre a mesma plataforma.

A migração que ninguém consegue fazer de um dia para o outro
Outro ponto destacado por Lopes foi a expansão do programa para provedores de serviços, com incentivo financeiro direto para quem está migrando de plataformas concorrentes. O pano de fundo é a mudança de política de licenciamento promovida pela Broadcom após a aquisição da VMware, que elevou custos para muitos provedores e os deixou buscando alternativas.

O problema, segundo Lopes, é que a migração tecnológica nunca é instantânea. Durante o período de transição, o provedor acaba pagando pelos dois ambientes ao mesmo tempo, o antigo e o novo, sem conseguir repassar esse custo ao cliente final. “Existe uma sobreposição de custo. Ele não pode simplesmente deixar de pagar o provedor A e começar a pagar o provedor B hoje”, explicou. O programa da Nutanix, chamado Elevate Service Provider, busca aliviar justamente esse intervalo.

Neoclouds no radar

O executivo também enfatizou o surgimento das neoclouds, operadoras especializadas em processamento de inteligência artificial que estão ganhando força na Europa e começam a aparecer no radar brasileiro. Originadas em empresas de telecomunicações que evoluíram para provedores de serviços, essas operadoras oferecem infraestrutura de processamento com apelo de soberania: os dados ficam no País, sob legislação local, sem as ambiguidades dos contratos com provedores globais.

Para ele, o Brasil tem condições de seguir esse caminho. “Vejo o mercado brasileiro e latino-americano mais conectado ao que acontece na Europa do que ao que se vê nos Estados Unidos, pela questão natural de governança e soberania.”

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