A transformação digital da Anatel ganhou um novo impulso nos últimos anos com a consolidação de uma estratégia baseada em dados, analytics e inteligência artificial. À frente desse movimento está Gustavo Nery e Silva, superintendente de Gestão Interna da Informação, que detalha como a agência evoluiu de um cenário fragmentado para um modelo robusto de governança, transparência e suporte à tomada de decisão.
Segundo o executivo, a base dessa transformação começou a ser estruturada ainda entre 2012 e 2015, quando a agência já coletava grandes volumes de dados do setor de telecomunicações — incluindo informações sobre qualidade de serviço, atendimento ao consumidor e certificação de produtos. No entanto, esses dados estavam dispersos e pouco organizados internamente.
“Apesar de termos uma base robusta, inclusive com dados abertos disponíveis à sociedade, a Anatel não tinha uma estrutura consolidada para usar essas informações de forma estratégica. Muitas decisões eram apoiadas em dados organizados por entidades externas ao órgão”, afirma.
Governança e analytics como pilares
A virada começou em 2017, com a criação da primeira política formal de governança de dados. Foi nesse contexto que a agência adotou soluções da Qlik, escolhidas pela facilidade de uso e pela capacidade de democratizar o acesso à informação.
“A decisão foi estratégica: precisávamos de uma ferramenta que permitisse às áreas de negócio enxergar valor rapidamente nos dados. O Qlik trouxe essa capacidade de visualização e acesso de forma intuitiva”, explica Nery.
Ao longo do tempo, a adoção evoluiu, com a incorporação de novas funcionalidades e a ampliação do uso da plataforma. Um marco importante ocorreu em 2021, com a contratação de soluções mais avançadas da companhia, consolidando o ambiente analítico da Anatel.
Mas, segundo o superintendente, tecnologia sozinha não resolve. “De nada adianta ter dados e ferramentas se as pessoas não estiverem preparadas. Por isso, capacitamos mais de 400 servidores e institucionalizamos uma política de self-service BI.”
O resultado foi uma mudança cultural significativa. A agência passou a operar com um modelo descentralizado, no qual as próprias áreas constroem seus painéis e análises, reduzindo gargalos e aumentando a agilidade.
Democratização e transparência
Hoje, a Anatel disponibiliza mais de 150 painéis públicos — segundo o executivo — e mais de mil dashboards internos utilizados na tomada de decisão.
Um dos exemplos mais emblemáticos é o painel de certificação de produtos homologados, amplamente acessado pela população. “São mais de 600 mil acessos. O cidadão pode verificar se um produto é regular antes de comprar, o que ajuda inclusive no combate à venda de itens ilegais”, destaca.
A ferramenta também é utilizada em campo pelas equipes de fiscalização, permitindo decisões em tempo real.
Esse modelo contribuiu para a quebra de silos internos e para a consolidação de uma cultura orientada a dados. “Antes, cada área tinha seu sistema. Hoje, cada área tem seu painel — mas dentro de uma governança que garante consistência e confiabilidade.”
Infraestrutura e migração para modelo híbrido
Com o crescimento exponencial dos dados, a infraestrutura também precisou evoluir. A Anatel está em processo de renovação de seu data center, com a implantação de uma nova instalação prevista para este ano.
O desafio, segundo Nery, vai além da aquisição de equipamentos. “A migração é o ponto mais sensível. Estamos falando de trazer todo um legado de sistemas e dados para um novo ambiente, com segurança e continuidade operacional.”
Paralelamente, a agência firmou contrato com o Serpro para adoção de um modelo de cloud broker, alinhado ao conceito de soberania de dados.
“A ideia é trabalhar dados sensíveis dentro de uma nuvem de governo, garantindo controle e segurança, mas ao mesmo tempo acessando serviços avançados de nuvem”, explica.
Esse movimento inclui integração com provedores como a Amazon Web Services e tecnologias da Microsoft, consolidando um ambiente híbrido — com parte dos dados em infraestrutura própria e parte na nuvem.
Apesar da magnitude, a governança central é conduzida por uma equipe enxuta. “Hoje, três pessoas cuidam diretamente da governança de dados. Isso só é possível porque o modelo foi desenhado para ser distribuído e eficiente”, ressalta.
IA soberana e novos desafios
No campo da inteligência artificial, a Anatel avança com cautela, priorizando segurança e governança. A agência já desenvolveu um assistente interno integrado ao Sistema Eletrônico de Informações (SEI), e agora trabalha na evolução dessa camada com suporte de múltiplas nuvens.
“A gente precisa evitar o uso descontrolado de ferramentas externas. Quando um servidor exporta dados sensíveis para uma IA pública, há risco. Por isso, estamos construindo uma camada corporativa de IA, integrada e segura”, afirma.
A estratégia inclui avaliar soluções analíticas com IA embarcada — como as oferecidas pela Qlik — para ampliar a capacidade de geração de insights sem comprometer a governança.
Foco no valor público
Para Nery, o principal objetivo da transformação é reposicionar a área de tecnologia da Anatel como agente estratégico. “Queremos deixar de ser uma TI reativa e passar a ser uma TI que entende o negócio, antecipa demandas e entrega valor real”, diz.
Esse valor se traduz tanto na melhoria da experiência dos servidores quanto na ampliação da transparência para a sociedade.
“Quando disponibilizamos dados de forma clara e acessível, estamos prestando contas ao cidadão. E essa é uma das funções mais importantes de uma agência reguladora.”
Com a consolidação do modelo híbrido, o avanço da IA soberana e a expansão do uso de analytics, a Anatel se posiciona como uma das referências no uso de dados no setor público brasileiro — um movimento que tende a ganhar ainda mais relevância nos próximos anos.
