Evento foi realizado pela União dos Vereadores do Estado de São Paulo (Uvesp).
O uso da tecnologia e a integração entre o Governo do Estado e os municípios para aprimorar a qualidade do ensino público foram discutidos ontem (26/02) durante o Intercidades – Educação, realizado em Campinas. O encontro regional, promovido pela União dos Vereadores do Estado de São Paulo (Uvesp), reuniu cerca de 200 representantes e gestores educacionais de 47 cidades, além de parlamentares, educadores e especialistas, para debater caminhos e soluções para o fortalecimento da área.
Para a presidente executiva da entidade e CEO do Conexidades, Sílvia Melo, a popularização da inteligência artificial (IA) é o principal desafio que se coloca, sendo um importante ferramenta para obter avanços, mas também traz risco. “Isso pode ser uma grande colaboração, mas também serve como alerta”, disse ela na abertura do evento, realizado no Centro de Eventos da Secretaria Municipal de Educação.
Para especialistas na área, a utilização a IA apresenta, entre outras vantagens a personalização da aprendizagem, permitindo que conteúdos, exercícios e ritmos de estudo sejam adaptados às necessidades individuais dos estudantes. O sistema também pode auxiliar os professores na elaboração de atividades, correção de avaliações e análise de desempenho, liberando tempo para práticas pedagógicas mais qualitativas, como o acompanhamento socioemocional dos alunos.
Porém, alertam que a inteligência artificial exigem uma mediação pedagógica cuidadosa. Um dos principais desafios é a dependência excessiva da tecnologia, que pode comprometer o desenvolvimento do pensamento crítico, da autonomia intelectual e da autoria dos estudantes. Há ainda preocupações relacionadas à desigualdade de acesso digital, podendo ampliar diferenças educacionais entre escolas e regiões. Questões éticas também se destacam, como privacidade de dados, confiabilidade das informações e possíveis vieses nas informações geradas.
Para a secretaria de Educação de Campinas, Patrícia Adolfo Lutz, “é irreversível a tecnologia presente nas escolas hoje. É preciso, ela faz parte desse contexto social e a gente precisa de fato ter uma utilização da tecnologia de maneira inteligente e de maneira que venha a agregar para os nossos jovens o avanço da aprendizagem”.
DISCUSSÃO
Em sua avaliação, encontros como o realizado ontem são importantes para a troca de experiência entre os gestores de educação, a apresentação e discussão de projetos implantados com sucesso para, de fato, “atingir o avanço do aprendizado dos nossos alunos”.
O evento foi realizado em um momento que a Prefeitura de Campinas apresentou um pacote de medidas para fortalecer o ensino dos cerca de 60 mil alunos da rede municipal, que apresentaram um desempenho abaixo da média estadual. O percentual de estudantes de 7 anos que sabem ler é de 70%, conta a 78% do Estado. O Indicador Criança Alfabetizada 2024, medido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) apontou que a cidade atingiu 41% entre as crianças até o final do 2º ano do ensino fundamental, contra a taxa estadual de 58%.
“A pandemia trouxe um prejuízo no aprendizado de nossos alunos. É importante a Secretaria de Educação, é importante a cidade de Campinas dar uma atenção para o aprendizado, para que a criança possa aprender, possa interpretar textos, possa falar o português correto, possa ter o aprendizado de matemática adequado para a vida”, defendeu o prefeito Dário Saadi (Republicanos) ao participar da abertura do Intercidades – Educação.
Para buscar a reversão desse quadro, já a partir deste ano, a Secretaria de Educação apresentou na semana passada um plano com oito medidas, entre elas reestruturação do plano pedagógico, contratação de uma consultoria especializada, ampliação do diálogo com os profissionais de saúde e continuidade das reformas e modernização das escolas municipais.
Por outro lado, o Ministério da Educação (MEC) premiou 16 cidades das 20 cidades da Região Metropolitana de Campinas (RMC), sendo 10 com o Selo Ouro e seis com o de Prata, dentro do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA), programa do governo federal desenvolvido com o objetivo de garantir a alfabetização das crianças até o final do 2º ano do ensino fundamental. Campinas ficou de fora da avaliação em 2025, mas se comprometeu a participar este ano.
Desde 2022, a prefeitura fornece notebooks para alunos de 1º ao 9º ano do ensino fundamental e dos quatro anos da Educação de Jovens e Adultos (EJA). O equipamento é compacto, leve e foi desenvolvido para tornar as tarefas escolares mais rápidas e acessíveis, servindo como um complemente para a educação convencional. Para o presidente da Câmara Municipal de Campinas, Luiz Carlos Rossini (Republicanos), “a gente vê a sociedade mudando, muita tecnologia sendo incorporada, e é preciso que os gestores e as políticas de educação acompanhem essas mudanças da sociedade.”
DIFERENÇAS
Segundo ele, os avanços tecnológicos devem ser acompanhados da discussão nas escolas de questões sociais, como bullying, violência e discriminação racial e de gênero, temas previstos pela Secretaria Municipal de Educação para serem debatidos nas escolas ao longo deste ano. A diretora de Cooperação com os Municípios da Secretaria Estadual de Educação, Márcia Bernardes, defendeu, durante o encontro, a integração entre os dois níveis de governo para melhorar a qualidade de ensino. De acordo com ela, 80% dos 645 municípios paulistas são pequenos e não contam com a estrutura de uma cidade como Campinas para enfrentar os desafios do ensino.
“O aluno é um só, é da rede pública. Quando este aluno vai bem no município, ele vai também no Estado”, disse Márcia Bernardes, ao apontar a necessidade do apoio do governo estadual para melhora a qualidade do ensino na rede municipal. Ela falou com a experiência de dez anos como secretaria municipal de Educação, sendo oito em Atibaia e outros dois em Mairiporã, antes de passar a atuar na Secretaria Estadual. Para a diretora de Cooperação com os Municípios, essa é a forma de cumprir o regime de colaboração previsto na Constituição de 1988.
O encontro realizado em Campinas incluiu apresentações de painéis, oficinas práticas e abordagens de projetos de sucesso de diferentes iniciativas nas cidades. A Uvesp é uma entidade, criada há 49 anos, voltada à capacitação e ao fortalecimento da gestão pública. O projeto Intercidades é um evento temático que percorre os municípios paulistas com debates estratégicos em diversas áreas de com as realidades regionais. São Roque, por exemplo, sediou o encontro sobre turismo.
A escolha de Campinas para o Intercidades – Educação foi em virtude de seus avanços nessa área, afirmou o presidente do Conselho Deliberativo da Uvesp, Sebastião Misiara. “Campinas, no cenário educacional, é respeitada internacionalmente. Por essa razão é que o primeiro Intercidade – Educação está sendo realizado aqui. Eu acho isso fundamental para uma cidade que a cada dia cresce, a cada dia se desenvolve, principalmente no campo da educação. Portanto, é simbólica a nossa presença aqui”, afirmou.
